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Luta não. Aikido é disciplina marcial.

Continuo a insistir nessa tecla: Aikido não é luta! Embora seja uma arte cujas técnicas foram derivadas da arte da guerra, o aikido é arte de paz. Para muitos isso parece óbvio, mas, às vezes até por uma questão de marketing, o que se justifica pelo dificuldade de se manter um dojô de Aikido, nossa arte é “vendida” como arte de defesa pessoal. Na minha concepção, defesa pessoal é objeto de artes como Krav Magá, Wing Chun… que são focadas quase que cem por cento para uma situação de rua. Para ser uma luta, falta no Aikido um aspecto bem evidente: a disputa. O fato de estudar técnicas defensivas não a faz uma arte de defesa pessoal. Algumas outras artes por serem esportivas, perdem também, com as regras, o caráter defensivo para as ruas, mas há uma disputa pela vitória… um quer a todo o custo sobrepujar o outro. No Aikido pratica-se, de certo modo, katas em duplas. Agora, se perguntam: mas se for preciso usar, funciona? Sabe se lá! Depende do estudo que a pessoa realiza. Agora, não quero dizer que as técnicas do Aikido não servem para se defender. Diz-se que na polícia do Japão, estuda-se Aikido. Em São Paulo e Minas Gerais sei que estudam… e aqui no Rio Grande do Norte, sei também que já houve treinamento com nossa arte. Mas não acredito que seja um treino de Aikido. Vejo como um treino com técnicas de Aikido… ou será que treinam lá Tai no Henko, Shiho Giri, Torifune, entre outros? No Aikido treinamos nossa mente, nosso espírito,… esse é o fim! Esse é o treino. Mesmo quando ataco de forma sincera estou atento para não machucar. Uma Luta necessita de partes em conflitos. Nem que seja uma disputa mental.
Agora… isso tudo é minha mera opinião… um praticante sem qualquer lastro de autoridade, mas que tem buscado ser honesto com suas práticas e convicções.

Na dúvida, a palavra do mestre, em epígrafe a esse texto.

Ribamar Lopes

Defesa Pessoal não é o fim imediato no Aikido

 técnica lidiane

No Aikido, a defesa pessoal não é o fim imediato.

Assim também se dá nos casos de artes marciais como o Kendo, Iado, Jodo, Kenjutsu, Iajustu, Kyudo, etc… a não ser que estejam seus praticantes se preparando para uma guerra de espadas, bastões e flechas.

A presença de espírito e a consciência da realidade no momento presente são sem dúvida o foco dessas artes, que podem ser muito mais úteis ao indivíduo para perigos da vida cotidiana do que treinar técnicas de defesa pessoal pura e simples.

A luta psicológica, diferentemente da luta física, é um fator diário na vida de todos. Proteger o cargo ou emprego é, em sentido amplo, proteger o indivíduo e sua família. Para isso, treinar a consciência de quem é, onde está e com quem vive é fundamental.

Mesmo numa situação de assalto, a mente fria pode salvar a vida. Reagir a um bandido armado pode somente precipitar uma fatalidade. Certa vez, quando eu nem praticava ainda arte marcial, um rapaz puxou meu relógio e correu. Não fui atrás, até mesmo, porque eu não teria o que fazer… depois, saiu calmamente o parceiro dele que ficou atrás de mim. Imagine se eu fosse um lutador e corresse atrás desse indivíduo?!

Creio que a defesa pessoal também não é o foco das lutas esportivas. Seria útil numa briga de um para um (adaptando-se à ausência de quimonos e regras), mas talvez não ajudasse numa situação inesperada que requer resposta rápida e mente fria, por exemplo, assalto e tumulto, muito mais comuns.

Ouso dizer que mesmo as técnicas pura e simples de defensivas podem, dependendo da formação do indivíduo, agravar o risco ao invés de salvar. Uma falsa ideia de poder talvez gere reações, quando deixar levar seja a melhor decisão. Salvo, é claro, em situações extremas como risco real de vida, estupros ou lesão corporal grave. Tirando casos extremos, melhor ceder.

Bom lembrar que os Samurais, a mais elevada classe de guerreiro conhecida, não temiam a morte, mas a respeitavam e, por isso, valorizavam a vida. Para tanto, realizavam práticas meditativas como forma de obter maior consciência da realidade, da presença na vida e da existência da morte.

Perceber, aliás, é defender-se. Perceber onde está, onde há perigo e evitá-lo, é a melhor defesa. E isso se treina no Aikido.

Acredito que sob este enfoque, fica muito mais compreensível as palavras Ô Sensei Morihei Ueshiba, fundador do Aikido, de que “nunca ser derrotado é nunca lutar”.

José Ribamar Lopes

Ter ma-ai é preciso

“ma- ai significa estar naturalmente no lugar certo”

Kisshomaru Ueshiba em A Arte do Aikido, p.90. Ed. Pensamento

No cotidiano, esse princípio é perfeitamente adequado às relações interpessoais.

É salutar a manutenção de um distanciamento mínimo, a fim de que não seja comprometida a relação harmônica entre os indivíduos em sociedade, posto que a permissividade pode ocasionar excessos a comprometerem a saúde destas relações. Por outro lado um distanciamento excessivo pode ensejar a indiferença às necessidades dos outros. Não tão próximo que se ultrapassem limites, nem tão distante que se esfriem as relações.

Portanto, no tatame ou na vida, ter ma-ai é preciso.

Budo como uma corrente que flui sob o Aikido

Trecho da entrevista a Isoyama Shihan-8 Dan Antigo aluno do Fundador, concidida a Stanley Pranin para o Aikido Journal Magazine copiado do blog Soshin Dojo, que por sua vez copiou do site da Brasil Aikikai.


Como você diria que sua ênfase na importância do Budo no Aikido se desenvolveu?

Por eu estar numa posição de ensino do Aikido, eu sinto que devo me manter orientado numa direção consistente. As pessoas praticam o Aikido por uma série de razões — para se manterem em forma ou saudáveis — mas é claramente o “Budo” que é a corrente fluente que existe por debaixo do Aikido. Não há problemas com as pessoas praticando Aikido por uma simples razão de os manter em boa forma, mas eu acho que eles deveriam ainda cultivar o tipo de vigilância constante que se deve Ter para se evitar dar aberturas aos potenciais oponentes. Esse é um aspecto oculto no Budo e de suma importância, e eu penso que ao se negligenciar ou dar pouca importância a isso em seu treinamento, resultará em uma grande divergência com o verdadeiro espírito do Aikido.

O pensamento do Fundador se modificou ao correr dos anos em que começou a ensinar o Aikido até o final de sua vida, por isso, naturalmente os tipos de movimentos que ele utilizava também se modificaram. Existem pouquíssimas pessoas que tiveram direto contato com ele durante essas várias décadas e, devido a isso, em muitos aspectos é como estória dos três homens cegos que apalpavam três partes diferentes de um elefante, dando descrições diferentes entre si sobre o que era um elefante. Nesse sentido, eu imagino se existe alguma pessoa capaz de entender a grandeza do O-Sensei em sua totalidade.

Algumas pessoas tiveram contato com o O-Sensei durante o tempo em que ele difundia o Aikido puramente como um Budo; outros somente começaram a aprender com ele quando seu pensamento evoluiu e ele enfatizava o Aikido como “um caminho para a harmonia”; outros ainda, estiveram com ele durante outros períodos de sua vida. Todos eles terão pontos de vista e interpretações diferentes, e eu acho que é impossível dizer que qualquer uma das interpretações seja a melhor que as outras.

Eu também acho que existem diferenças de acordo com e a idade do aprendiz. As pessoas mais jovens naturalmente procuram um tipo mais forte de Aikido, enquanto que os mais velhos podem Ter sido atraídos aos aspectos mais espirituais e harmônicos, e assim sendo, isso é o que cada um absorve dos ensinamentos do O-Sensei. Assuntos como esse tornam muito difícil de se falar do Aikido de uma maneira mais definitiva.

Como você sabe, o O-Sensei nunca escreveu muito sobre Aikido em livros, mesmo assim, algumas de suas técnicas estão gravadas no livro “Budo“. Algumas vezes penso no porque de ele não Ter escrito mais sobre o Aikido, mas por outro lado, acho que compreendo: eu pensamento gradualmente foi evoluindo, e ele pode Ter sentido que qualquer coisa que ele escrevesse em seus anos de juventude, poderia acabar sendo potencialmente contraditório com seus pensamentos mais tarde. A mesma verdade existe em sua técnicas: se ele houvesse dito alguma coisa definitiva sobre elas em qualquer época, ele poderia acabar se contradizendo mais tarde em sua vida, devido a sua evolução.

Outra dificuldade que existe é a de diferentes pessoas que tendem a querer interpretar as palavras do O-Sensei em maneiras diferentes, mesmo que ele, na verdade, tenha dito a mesma coisa para todas elas. As pessoas então, tendem a expressar suas próprias interpretações como se tivessem absorvido tudo o que ele queria dizer e, por isso, os levam a outras variações, o que acaba causando eventuais desentendimentos.

Quando o O-Sensei ensinava, ele nunca dava nenhuma explicação detalhada em particular. Uma das razões era que muitas das pessoas que vinham treinar Aikido com ele, eram sempre pessoas de alto nível social, como oficiais militares, políticos, pessoas altamente graduadas de outras artes marciais, pessoas do setor financeiro, administradores de grandes empresas, e muitas outras pessoas importantes e respeitadas em seus ramos de negócio. Dar detalhes demais para pessoas assim, por exemplo, ensiná-los coisas como: “essa é a maneira correta de se curvar ao se cumprimentar” e coisas do tipo, seriam consideradas como humilhantes e ofensivas.

Durante o treinamentos, O-Sensei sempre se dirigia em linguagem respeitosa e educada aos indivíduos de alto nível na sociedade e a nós alunos comuns. Eu ficava muito comovido por essa atitude de interagir com as pessoas.

Um exemplo pode ser o debate sobre o atemi, que quase não existe mais como parte da maioria das técnicas de Aikido. Qual é o seu pensamento sobre o uso do atemi, de um ponto de vista de combate?

Fazer o atemi somente por fazer, resulta em nada mais do que uma forma vazia. Não há necessidade de se dar um atemi, a não ser que seu golpe é o tipo de golpe que terá um efeito real. Um atemi não tem que necessariamente resultar em um golpe fatal, mas deve ser capaz de causar um certo estrago real. Também, se você quiser pensar seriamente sobre atemi, você terá que pensar também sobre os chutes.

Karate, por exemplo, tem excelentes técnicas de chute e socos. Eu diria que a maioria dos movimentos do Karate é predominantemente em linha reta, enquanto que no Aikido tende-se a enfatizar os movimentos mais circulares ou esféricos. Ambos tem seus pontos fortes e deficiências, e eu não acho que você pode dizer incondicionalmente, que um é melhor do que o outro. Em todo caso, se você vai usar socos ou chutes como atemi no Aikido, você precisa pensar constantemente em como deve incorporá-los, de maneira que seja considerado o timing e outras características dos movimentos do Aikido.

Caçando dois coelhos

Um estudante de artes marciais aproximou-se de seu mestre com uma questão:

“Gostaria de aumentar meu conhecimento das artes marciais. Em adição ao que aprendi com o senhor, eu gostaria de estudar com outro professor para poder aprender outro estilo. O que pensa de minha idéia?”

O caçador que espreita dois coelhos ao mesmo tempo,” respondeu o mestre, “corre o risco de não pegar nenhum.

Conto Zen de autor desconhecido.

Por um propósito maior

Masafumi Sakanashi Sensei

“Conta-se que no grupo de pessoas próximas a J.F.Kennedy, nos anos 60, se propôs que a década não ia terminar sem que o homem chegasse à Lua. E conseguiram! Mas depois, um número importante de cientistas caiu na depressão e loucura, inclusive no suicídio. Seu propósito era excelente, mas não estava vinculado a um objetivo mais alto. Se fazemos uma comparação com a prática do Aikido, acontece que muita gente tomo como finalidade chegar à faixa preta. E depois produz um vazio. E na verdade, a faixa preta é o primeiro degrau. É como aprender a ler e depois nunca mais abrir um livro.”

Retirado do Livro Aikido O desafio do Conflito. Ed. Pensamento, São Paulo, 2011, p.29.

Contra dez homens – Escritos de um Mestre Zen a um Mestre de Espada

Supõe que dez homens, cada um deles com uma espada, se abatam repentinamente sobre ti. Se tu te desviares de cada espada sem fixar a mente em nenhuma ação, e passares de cada um ao seguinte, tua ação será perfeita para cada um dos dez. Embora a mente aja dez vezes contra dez homens, poderá a ação deixar de ser perfeita se a mente não se fixar em nenhum deles e tu reagires a cada um deles sucessvimamente?

Supõe, porém, que a mente se detenha perante um desses homens. Embora tu te desvies da sua espada, quando o próximo homem vier a ação perfeita terá escapado de ti.

Trecho do livro a Mente Aberta do Monge Zen Takuan Soho, que segundo a lenda, foi mestre e amigo de Miyamoto Musashi.