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A PLENA ATENÇÃO

A atenção plena é uma das qualidades desenvolvidas no Zen e no Budismo em geral, mas também devemos desenvolvê-la no Aikido.

Estar presente, é uma prática fundamental no nosso caminho marcial. No budismo realiza-se através de práticas meditativas ou através da realização consciente das atividades cotidianas.

É bom ressaltar, no entanto, que são caminhos distintos, com mecanismos distintos, com alguns resultados comuns, como é o caso da plena atenção.

Por isso e outras coisas que o Aikido é um caminho; um instrumento de aperfeiçoamento pessoal.

Na nossa prática, a consciência do presente se faz fundamental, quando se há um treino sério e comprometido.

Embora a tradução “caminho da harmonia da energia” sugira uma prática inofensiva, um desavisado poderá surpreender-se. O Aikido é uma arte marcial defensiva. Utiliza muito de atemis (golpes), desequilíbrios, projeções e torções. É uma arte derivada das práticas samurais utilizadas nos campos de batalhas, modificadas para não lesionar, mas, com certeza, salvaguardar o seu praticante, resolvendo a situação conflituosa.

A harmonia da energia, na verdade, não é uma “valsa” com o agressor. É a harmonização com o percurso da força para absorvê-la e dominá-la, conduzindo a uma situação controlada. Que fique claro, o Aikido NÃO É O ZEN!!! São caminhos diversos, com alguns fins e instrumentos comuns. A conhecida frase “o Aikido é o Zen em movimento” é, em verdade, uma metáfora, fazendo uma referência a estes pontos.

A prática marcial deve ser sincera! Portanto, ambos os participante Uke e Tori (nage) devem estar atentos, pois um atemi (golpe) virá, seguido de uma projeção ou aprisionamento, ou ambos juntos, que pode eventualmente ser danoso aquele que não souber moldar-se à situação.

Portanto, conectar-se com o presente é fundamental. A atenção plena é uma necessidade… não é como sentar e optar por observar-se. Ou observa-se ou sentirá o gosto amargo da prevaricação.

Assim, os métodos são diversos, mas alguns resultados são comuns. A plena atenção é a mesma. A prática que é diversa.

Com o tempo, como frutos da atenção plena, observamos não somente ao outro, mas a nós mesmos, podendo identificar a semente da discórdia presente em nós, que muitas vezes acirra o conflito, que quando não alimentado, termina em seu nascedouro. Assim, atentos, poderemos eliminar o espírito agressivo existente em nós, poupando-nos da utilização das ferramentas físicas feitas para funcionar.

José Ribamar Lopes

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Forte e harmônico

O Aikido é uma arte marcial de difícil compreensão pela maioria das pessoas, inclusive por muitos dos seus praticantes.

Talvez pelo o fato de, sendo arte marcial, falar em harmonia.

“Aiki não é uma técnica para lutar com ou derrotar o inimigo. É o caminho para reconciliar o mundo e fazer dos seres humanos uma só família.” Morihei Ueshiba.

Sem dúvida alguma Aikido é um caminho, e como tal tem os seus fins de aprimoramento espiritual e humano. Parece claro na frase acima do Ô Sensei que no Aikido não há um fim de luta. Aliás, ele mesmo teria dito que nunca ser derrotado é nunca lutar. E isso não é fácil de ser compreendido pela visão comum de que em arte marcial aprende-se a lutar para ganhar de alguém ou de todos.

A criação de uma mente não agressiva é objetivo declarado pelo fundador do Aikido.

Creio que não fosse essa a intenção, bastaria a O Sensei continuar no Daito Ryu.

No entanto, é o Aikido uma arte marcial. Não treina-se luta, mas treinam-se técnicas defensivas. Se a concentração e a atenção são buscadas, há de se primar pela perfeição. E a perfeição no treino de defesa é não deixar brechas. Portanto, por mais que a eficiência marcial não seja o fim, é, no entanto, o meio.

“O verdadeiro pacifista é aquele capaz de causar danos imensuráveis mas escolhe não faze-lo quando provocado.”Morihei Ueshiba

Portanto, necessário que fique claro que ser harmônico não é ser fraco. Ser harmônico é ser forte, sem medo e por isso sem agressividade.

Acredito que a preocupação de quem treina Aikido não deve ser a de se alguém me atacar na rua ou no trânsito ou em qualquer outra situação. Na minha concepção, a preocupação do Aikido deve ser a de treinar sem deixar brechas técnicas e de espírito, para que se forme uma estrutura espiritual inabalável, pois a agressividade surge do medo e da sensação de impotência diante de uma situação.

A atenção na ausência de brechas, na movimentação correta e na mente atenta é um excelente exercício para uma personalidade confiante.

A leveza do espírito faz gerar a força. A força pacífica, que embora não violenta, ainda é forte.

Para ser harmônico, há de ser forte, caso contrário não conseguirá harmonia. O fraco não tem escolha.

Assim, quando treino Aikido não busco vencer ninguém, mas tenho todo o cuidado para não deixar pontos de vulnerabilidade, não esquecendo nunca tratar-se de uma arte marcial.

E assim caminhamos buscando ser fortes e harmônicos.

Ribamar Lopes

A voz do Aikido

Eu quero que todos tenham mente aberta para escutar a voz do Aikido. Não tente mudar as outras pessoas. Mude a sua própria mente primeiro. Essa é a meta do Aikido, é a sua mensagem. Cada indivíduo te um papel a desempenhar na divulgação dessa mensagem.

Morihei Ueshiba
em Ensinamentos Secretos do Aikido. Ed. Cultrix. 2010, p. 98.

IRIMI NAGE – Finalizando o conflito, reestabelecendo a paz

Conclui no ano passado um Pós Graduação em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Lia na época o livro “Aikido o Desafio do Conflito” de Masafumi Sakanashi, quando pensei se haveria como inserir a filosofia do Aikido na minha monografia. Serviu-me de inspiração também o subtítulo “harmonia no confronto” do Livro “Aikido Shugyo” de Gozo Shioda.

 Nessa linha, encontrei o tema da Mediação Judicial, que pretende ser um instrumento de pacificação do litígio, com objetivo de não somente por fim ao processo, mas restabelecer a pacificação social, através do método de fazer olhar o problema sob o prisma do outro.

À minha mente veio então a imagem do IRIMI NAGE, técnica do Aikido onde as partes iniciam em posições diametralmente opostas, para em seguinda olhar no mesmo sentido, e, a partir de uma confluência de energias, conduzir a um fim benéfico a ambos os praticantes.

Receei, porém, não ser compreendido no formalismo do universo jurídico, de modo que não deixei o Aikido expresso no meu trabalho, senão nos agradecimentos onde fiz referência a O Sensei, por seus ensinamentos que me conduziram naquela empreitada.

No entanto, quando da defesa oral, embora verbalizasse a mediação, visualizava o IRIMI NAGE, que era do que eu realmente tratava.

Ao fim, para minha surpresa, a banca se disse surpreendida pela minha abordagem, que superou a escrita, porque calcada em princípios, dando a nota de 9,5 (nove e meio), para mim, muito além do esperado.

Claro que tive sorte de ter pego uma excelente banca, que me deixou tranquilo para poder expressar-me, além ser composta por membros mais abertos à idéias.

Mas acima de tudo, senti-me muito gratificado em ter podido expressar-me através do Aikido, a arte cuja técnica e filosofia, escolhi para moldar meu espírito e personalidade.

Ribamar Lopes

1° Kyu – Aikido

Duelo de Chá

Um mestre da cerimônia do chá no antigo Japão certa vez acidentalmente ofendeu um soldado, ao distraidamente desdenhá-lo quando ele pediu sua atenção. Ele rapidamente pediu desculpas, mas o altamente impetuoso soldado exigiu que a questão fosse resolvida em um duelo de espadas. O mestre de chá, que não tinha absolutamente nenhuma experiência com espadas, pediu o conselho de um velho amigo mestre Zen que possuía tal habilidade.

Enquanto era servido de um chá pelo amigo, o espadachim Zen não pôde evitar notar como o mestre de chá executava sua arte com perfeita concentração e tranqüilidade. “Amanhã,” disse o mestre Zen, “quando você duelar com o soldado, segure sua arma sobre sua cabeça como se estivesse pronto para desferir um golpe, e encare-o com a mesma concentração e tranqüilidade com que você executa a cerimônia do chá”.

No dia seguinte, na exata hora e local escolhidos para o duelo, o mestre de chá seguiu seu conselho. O soldado, também já pronto para atacar, olhou por muito tempo em silêncio para a face totalmente atenta porém suavemente calma do mestre de chá. Finalmente, o soldado lentamente abaixou sua espada, desculpou-se por sua arrogância, e partiu sem ter dado um único golpe.

Conto Zen de autor desconhecido